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Razão e fé em Tomás de Aquino: A existência de Deus


Razão e fé em Tomás de Aquino
A existência de Deus

É bem difundida a interpretação segundo a qual Tomás de Aquino ocupou-se mais do que qualquer outro teólogo medieval de estabelecer fundamentos lógicos para as propostas da fé cristã. Digo fundamentos lógicos para evitar a reprodução equivocada da noção de que o objeto da Fé é sempre algo que contradiz o entendimento racional, ou que seria sempre uma forma de absurdo.
Em seu compêndio de teologia, Aquino se propõe a discorrer sobre os meios para a salvação humana, segundo sua elaboração. Tal salvação consistiria em:
1.   Conhecer a verdade, livrando a inteligência do erro.
2. Direcionar-se para o fim devido, evitando desviar-se da Felicidade verdadeira.
3.   A observância da justiça, desviando-se dos vícios.
O primeiro ponto refere-se a “Fé”, o segundo a “esperança” e o terceiro ao “amor”. Estes que são as virtudes teologais, conforme as palavras do próprio São Paulo em sua carta:

“Agora permanecem estes três a esperança a fé e o amor mas o maior destes é o amor” (1Co 13: 13)

No primeiro ponto a ser tratado, que é a fé, a qual é definida por Tomás de Aquino como sendo “um certo antegozo daquele conhecimento que nos fará felizes no futuro” e como a “substância das coisas que se esperam”. Ele estabelece a pedra fundamental de sua construção teológica: a existência de Deus.

“Quanto a unidade de essência divina, a primeira coisa é crêr que Deus existe, o que aliás é óbvio a razão”.

    Percebe-se pela expressão “o que aliás é óbvio a razão”, que, para Tomás de Aquino a existência de Deus é algo que está em total conformidade com a razão humana.
    Logo Tomás de Aquino inicia sua argumentação com a tese de que “ tudo quanto se move é movido por outros”. O movimento está presente no universo e tudo que se move é movido por outro superior ou mais forte.  
    Este ente superior também é movido por outro ainda mais forte, e assim por diante.  A razão requer que esta cadeia de causadores do movimento encontre um limite numa primeira causa.
   Por movimento deve-se entender não simplesmente o deslocamento de algo através do espaço e do tempo, de um lugar para outro, mas todas as transformações e desenvolvimentos pelos quais os seres passam, e isto se  infere da seguinte passagem:

“Ora, até mesmo os não letrados percebem que seria irrisório afirmar que os instrumentos não são movidos por algum agente principal. Equivaleria isto, aproximadamente, a afirmar a possibilidade de fazer uma caixa ou uma cama com a serra e o machado, porém sem a intervenção de um carpinteiro. ”

   Ora, o carpinteiro, nesta ilustração, é o ser ao qual denominamos Deus. Sendo a causa primeira de tudo que se move no mundo, Deus não é movido por nada. Ele é imóvel.
   Certamente tal adjetivo (imóvel), aplicado a Deus, que não é ser material, é impróprio e deve significar que ele é um ser pleno, imutável, não sujeito às transformações, à semelhança dos seres materiais.  No dizer de Aquino, Deus é ato puro, total realização.
   A partir deste fundamento, Aquino passa a inferir várias conclusões sobre a natureza de Deus, pautado totalmente em argumentos lógicos. O que ele procura demonstrar é que há verdades cristãs acessíveis a todos os homens, por meio do emprego da Razão, embora outras apenas possam ser acessadas pela fé. 


“Tudo o que acima foi dito a respeito de Deus, muitos filósofos dos gentios consideraram com sutileza, embora alguns o tenham feito com erro. Os que disseram coisas verdadeiras sobre tais assuntos, a elas chegaram com dificuldade, após longa e trabalhosa procura. Há, porém, outras verdades, a respeito de Deus, expostas na doutrina cristã, às quais eles não puderam chegar, quais sejam as verdades que conhecemos pela fé, e que ultrapassam a capacidade do entendimento humano.”



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